No auge da chamada Política Nacional de Informática, entre 1978 e 1984, a IBM BRASIL foi guindada, pelo governo militar e pelos formadores de opinião no país, ao posto de belzebu da vez. Foi um período difícil para a empresa e seus – então - quatro mil funcionários, todos brasileiros natos que não entendiam a razão de uma repentina hostilidade desenvolvida contra a IBM, principalmente por parte da mídia e da comunidade acadêmica e científica. Foi então que, dentro de um amplo projeto de recuperação da imagem da empresa junto a públicos importantes, se criou um programa chamado “Encontro Marcado”, título do famoso livro de Fernando Sabino. Obviamente, o uso do título teve a autorização do escritor que, aliás, foi quem inaugurou o projeto. O programa – que mais tarde veio a ser chamado “Encontro Marcado com as Artes” – tinha, como objetivo, aproximar a IBM de um segmento que, à época, guardava muitos preconceitos com relação às empresas americanas e, em particular, àquela que simbolizava, no momento, o Dragão da Maldade: a intelectualidade brasileira. O programa era muito simples mas de amplo alcance. Consistia em gravar-se, em vídeo, uma entrevista com escritores nacionais de renome, entrevista na qual o entrevistado falava de sua vida e de sua obra. O segundo passo era levar, às universidades, os dois – o(a) escritor e o vídeo – para um debate aberto e informal com os estudantes, incluindo o direito a autógrafos, fotos e livre tietagem. De uma só cajadada, a IBM chegava aos intelectuais, aos professores, estudantes universitários e à mídia. Bingo, bingo, bingo. Já quase no final da década de 80, tendo já uma experiência positiva com mais de 50 escritores, convidamos para participar do programa Ferreira Gullar, um dos maiores poetas deste país. Como de praxe, Araquém Távora, - o idealizador e condutor do programa, - levou o poeta para almoçar comigo na IBM. [ Na ocasião, eu era Diretor de Comunicações da empresa.] Durante o almoço, como convinha, Araquém falou sobre a dinâmica do programa, contou histórias sobre a experiência de outros participantes, eu vendi o meu peixe falando da empresa, aquela coisa toda. Foi uma reunião agradabilíssima como não poderia deixar de ser uma conversa com Ferreira Gullar. Fizemos planos, rimos muito, etc. Já estávamos no cafezinho, quando Gullar mudou sua fisionomia e disse: - Bem, está tudo certo, vamos fazer este projeto juntos, mas, por uma questão de consciência, eu não posso deixar de fazer um registro desagradável. Araquém engoliu em seco. Isto não estava no programa, pensou. - Durante anos e anos, eu tive muita raiva da IBM – continuou o poeta sem alterar o tom de voz mas revelando uma mágoa longe de estar resolvida. E contou a seguinte história. Por volta de 1970, na fase mais dura do famigerado AI5, Gullar foi obrigado a homiziar-se num quarto de empregada de um apartamento na Zona Sul do Rio. Para não correr o risco de ser denunciado por vizinhos ou porteiros, não punha a cara na janela, sequer saia do quarto. Ficou, ali, semanas sem ver a luz do dia. Seu único contato com o mundo exterior se fazia através da leitura de revistas e jornais que o dono do apartamento, - uma pessoa de toda confiança – lhe trazia de vez em quando. Certo dia, folheando a revista Veja, deparou-se com um anúncio da IBM, de página inteira, encabeçado pelo seguinte título: A CRASE NÃO FOI FEITA PARA HUMILHAR NINGUÉM. Seguia-se um texto que falava das maravilhas dos computadores, etc. Gullar ficou revoltado porque a frase - como era do conhecimento de muita gente - era de sua autoria, Ferreira Gullar. - Naquele momento - disse Gullar , eu me senti duplamente lesado. Primeiro, pela ditadura que me tirava a liberdade; segundo, pela IBM, uma empresa americana, que, com a maior desfaçatez, roubava algo do meu patrimônio intelectual. Araquém me olhou por sobre os óculos como se me desafiasse: Sai dessa, Roberto! Depois da revelação, aliviado, Gullar foi elegantíssimo: - Mas deixa isto pra lá, já lá se vão vinte anos, o Brasil e mundo mudaram. Eu contei esta história porque o episódio me magoou muito e durante anos, fiquei com isto atravessado na garganta. Cheguei até a menciona-lo num dos meus livros. E abrindo um largo sorriso: - Já esqueci. Evidente que o episódio não poderia ser esquecido assim com um simples desabafo. Não seria bom para o relacionamento que ele se iniciasse com essa ferida ainda aberta. Imagine o desconforto de alguém que empresta seu nome para quem lhe bateu a carteira. Imagine o desconforto de quem contrata uma pessoa ressentida com algo que você fez no passado. Não, esta parceria não iria funcionar. Não seria legal para ninguém, nem para o poeta, nem para mim, nem para o Araquém, nem para a IBM. Constrangido, disse que seria difícil agora apurar responsabilidades depois de vinte anos. Tanto as pessoas na IBM, que aprovaram o anúncio, como os profissionais da agência de publicidade, que o criaram, não estariam mais por lá. Em defesa da empresa, expliquei que dificilmente quem aprovou o anúncio sabia que a frase estava sendo roubada. O mundo executivo era outro, a IBM era uma empresa de tecnologia, etc. Não éramos familiarizados com literatura, mas éramos uma empresa ética. Enfim, podia garantir que, com certeza, má fé, não houvera. Ocorreu-me, então, o que parecia ser uma boa idéia. Sugeri que Ferreira Gullar escrevesse uma carta para a IBM relatando o episódio e que juntasse uma cópia do anúncio, coisa que poderia ser obtida facilmente nos arquivos da Abril. O valor da indenização, a gente discutiria depois. O importante era ressuscitar a questão de forma a possibilitar a reparação da lesão de direito sofrida pelo poeta e a limpeza da nossa barra. Gullar elegantemente resistiu. “São águas passadas. Já esqueci” – repetiu. Depois, com a minha insistência, aceitou a sugestão, Araquém respirou aliviado e eu fiquei com o mico na mão imaginando a via crucis que teria que percorrer para aprovar, junto aos nossos advogados e à burocracia interna, uma indenização referente a algo que ocorrera há vinte anos. “Esses poetas...” – era o que eu, de mais educado, iria ouvir. Não passou uma semana, Araquém me liga, excitado: - Roberto, estou ligando para você em nome do Gullar. Ele está envergonhadíssimo. Imagine que, pesquisando nos arquivos da Abril, descobriu duas coisas. Primeiro, que a frase no anúncio não é A CRASE NÃO FOI FEITA PARA HUMILHAR NINGUÉM e sim O COMPUTADOR NÃO FOI FEITO PARA HUMILHAR NINGUÉM. É diferente, né? – comentou Araquém. – Não daria para configurar um plágio. Em segundo lugar, - olha só que maravilha ! -, o anúncio não é da IBM e sim da BURROUGHS !!! [Nota: empresa então concorrente da IBM e que mais tarde se juntou à UNIVAC para formar a atual UNISYS]. Ele ficou muito chateado com tudo e pede mil desculpas. Não posso negar que fiquei feliz por ter me livrado do mico. Mas também fiquei com pena do poeta que agira com toda boa fé. Lembro-me ter dito ao Araquém. - Diga ao Gullar que ele não precisa ficar envergonhado. Ele foi traído por um negócio chamado Top of Mind. Vale dizer: falou “computador”, pensou “IBM”. “Top of Mind” funciona para o bem e para o mal. Infelizmente, daquela vez, para nós, funcionou para o mal.
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